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Cobre: a escassez que ameaça os carros elétricos, as tecnologias verdes e a Inteligência Artificial

Carro elétrico desportivo prateado exposto num salão moderno com globo iluminado e estação de carregamento.

Por vezes, só percebemos até que ponto o nosso dia a dia depende de determinadas matérias-primas quando elas começam a faltar. O cobre é um desses casos.

Este metal está por todo o lado numa sociedade cada vez mais tecnológica: tanto na eletricidade como na eletrónica. A sua elevadíssima condutividade elétrica tornou-o, há muito, a escolha óbvia para estas utilizações.

Por isso mesmo, a procura por cobre tem vindo a subir de forma consistente e poderá disparar nos próximos anos. As razões apontadas são duas: a expansão rápida das tecnologias verdes e, em paralelo, o avanço da Inteligência Artificial.

No primeiro grupo cabem exemplos como automóveis 100% elétricos e turbinas eólicas; no segundo, entram os grandes centros de dados, que também exigem volumes impressionantes deste metal.

O resultado é que a procura já está em máximos históricos. E, segundo previsões citadas do banco UBS, o défice na oferta de cobre, este ano, será superior a 200 mil toneladas - com perspetivas de agravamento nos próximos anos, de acordo com projeções do setor.

Quantos quilos de cobre há num carro?

O automóvel é um exemplo prático do salto de consumo de cobre que se aproxima. Mesmo num veículo apenas com motor de combustão, já seguem cerca de 23 kg de cobre (cablagens, alternador, entre outros componentes).

De acordo com dados da International Copper Association, num carro 100% elétrico essa quantidade quase quadruplica para cerca de 83 kg (motores, baterias, etc.). Já os híbridos posicionam-se entre os dois extremos: aproximadamente 40 kg e 60 kg, respetivamente para híbridos e híbridos plug-in.

A pressão aumenta ainda mais porque os elétricos e os híbridos plug-in necessitam de carregadores, que também incorporam cobre: num carregador rápido, o intervalo pode ir de 700 g até aos 8 kg.

E a procura não abranda porque as vendas globais de elétricos e híbridos continuam a subir. Tal como já noticiámos, em 2024 as vendas mundiais cresceram 25% face ao ano anterior (fonte: Rho Motion), e a tendência aponta para continuidade.

Os números da International Copper Association ajudam a dimensionar o ritmo: em 2017 existiam no mundo três milhões de veículos elétricos e híbridos (automóveis e autocarros); em 2027 a estimativa é que cheguem aos 27 milhões. O que se traduz num salto de 185 mil toneladas de cobre usado (só elétricos e híbridos) em 2017 para 1,74 milhões de toneladas em 2027 (valor estimado) - quase 10 vezes mais.

Com a ambição de eletrificação total do automóvel nas próximas décadas, cresce também a possibilidade de uma crise de matérias-primas.

“O objetivo de ser 100% elétrico até 2035 não vai conseguir ser cumprido sem uma aceleração sem precedentes na mineração de cobre.”

Joseph McMonigle, secretário geral do Fórum de Energia Internacional

São precisas mais minas

Há alguns anos, a grande preocupação na indústria automóvel era a escassez de lítio para produzir baterias para o volume de carros elétricos previsto. Esse tema mantém-se e, tal como acontece com o cobre, continua a formar-se um défice preocupante na oferta de lítio.

Ainda assim, a limitação não é a inexistência de cobre e lítio no planeta, mas sim a capacidade de os extrair. A mineração instalada não acompanha a procura crescente.

“A procura por cobre deverá superar a produção global em 2025, marcando um ponto de viragem na capacidade deste material de satisfazer as necessidades globais para a transição energética.”

Robert Wares, Presidente e CEO da Osisko Metals

Se a resposta passa por mais minas, porque não se abrem simplesmente? Porque o processo é lento: em média, são necessários 23 anos para uma mina de cobre entrar em funcionamento (desde a descoberta de depósitos até ao arranque da operação). Entretanto, a procura evolui a um ritmo muito superior ao da abertura de novas minas.

Um estudo divulgado pelo Fórum de Energia Internacional (IEF) ilustra a dimensão do desafio.

Mesmo num cenário em que nada mudaria - sem iniciativas verdes -, para cobrir as necessidades de cobre previstas entre 2018 e 2050 seria preciso aumentar a produção em 115% em relação a todo o cobre produzido pela humanidade até 2018.

Sim, em 32 anos teríamos de produzir mais cobre - 260 milhões de toneladas estimadas - do que o que já foi produzido em toda a história. Só este cenário implicaria, por si só, abrir 1,1 minas de cobre por ano.

A questão é que a aposta está a ser feita, em força, na mobilidade elétrica e em várias iniciativas verdes, como a expansão da energia eólica.

Num cenário em que os automóveis elétricos dominam, o IEF estima que, no mesmo período (2018-2050), seja necessário produzir cerca de 404 milhões de toneladas de cobre - o equivalente a abrir 1,7 minas por ano. Se o objetivo for atingir a neutralidade carbónica, a necessidade de cobre dispararia para 1460 milhões de toneladas entre 2018 e 2050, exigindo a abertura de seis novas minas por ano.

Contas feitas, o IEF prevê, dependendo do cenário, a abertura de entre 35 a 194 minas de cobre até 2050.

Há soluções?

Todos os cenários apontam para um aumento da procura de cobre nas próximas décadas. A procura já ultrapassa a oferta e, segundo estas perspetivas, continuará a fazê-lo. A forma viável de responder é aumentar o número de minas, embora o IEF apresente uma via para gerir o crescimento da procura.

Essa via não passa por reciclagem, porque esta já é prática comum. A International Copper Association indica que, atualmente, mais de 30% do cobre utilizado é reciclado, e a União Europeia refere que 44% da procura de cobre dos estados-membros provém de fontes recicladas.

A solução proposta pelo IEF passa por mudar o foco dos automóveis elétricos para os automóveis híbridos (que não precisam de ligar à tomada).

Como precisam de, sensivelmente, metade do cobre face a um 100% elétrico, o impacto na procura pode ser relevante. “Como uma tecnologia de transição, os híbridos permitem uma transição gradual para a eletrificação total enquanto a produção de cobre aumenta”, pode ler-se no estudo da IEF.

Além disso, contribuem para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, como se pretende. Isso verifica-se não apenas na utilização - são à volta de 30% mais eficientes do que carros apenas a combustão -, mas também na fase de produção, quando comparados com os elétricos.

Há mais soluções?

Não existe uma resposta única que elimine o problema, mas há uma alternativa que pode ajudar a atenuá-lo: a evolução do próprio automóvel elétrico. Um relatório da Benchmark Mineral Intelligence indica que há uma tendência para diminuir a quantidade de cobre por cada carro elétrico.

Segundo a consultora, em 2015 um carro elétrico necessitava, em média, de 99 kg de cobre. Esse número tem descido e, em 2030, deverá situar-se nos 62 kg (menos 37%). Esta redução é atribuída a vários fatores.

Um deles é a melhoria contínua da eficiência dos componentes de elétricos (e híbridos). Com maior eficiência, é possível reduzir cobre utilizado, seja nos enrolamentos dos motores elétricos, seja na espessura das folhas de cobre usadas nos ânodos das baterias.

Em paralelo, começam a surgir materiais alternativos ao cobre, como o alumínio (por exemplo em cablagens e cabos de carregamento). Para além de ser mais leve, tende a ser mais barato. Ainda assim, tem limitações, porque precisa de mais espaço para alcançar o mesmo nível de condutividade.

Ainda assim, a Benchmark Mineral Intelligence admite que, mesmo com menos cobre por veículo, o crescimento contínuo da produção de automóveis elétricos não travará a subida da procura por cobre.

As suas projeções apontam para um aumento de 177% entre 2023 e 2030, chegando às 2,5 milhões de toneladas anuais.

Fontes: International Copper Association; Investing News Network; International Energy Forum

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