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O pardal-doméstico: de praga a aliado do jardim, segundo a LPO

Pardais a comer folhas num canteiro de jardim, com mulher ao fundo a cuidar das plantas.

Quando se fala em aves populares de jardim, a maioria das pessoas imagina logo chapins coloridos ou a mancha laranja viva no peito do pisco-de-peito-ruivo. Há, porém, outro pássaro pequeno que, muitas vezes, é visto como incómodo, enxotado ou simplesmente ignorado.

A Liga Francesa para a Protecção das Aves (LPO) deixa agora um recado claro: esse visitante tão comum no comedouro é, afinal, um aliado importante do jardim e da biodiversidade.

De “praga” a protegido: a mudança de imagem de uma ave do dia a dia

Durante décadas, o pardal-doméstico - mais conhecido apenas como pardal - foi considerado aborrecido em grande parte da Europa. No campo, muitos agricultores culpavam-no por bicar sementes e grãos nas culturas. Nas zonas habitadas, repetiam-se queixas: sujaria pátios e terraços, beliscaria fruta madura e afastaria espécies “mais bonitas” do comedouro.

Hoje, especialistas em aves contestam essa reputação de forma bem mais firme. A LPO fala mesmo de um preconceito criado pelo ser humano. Avaliar o pardal apenas pelo suposto prejuízo nas colheitas é ignorar o papel que desempenha no ecossistema como um todo. E esta forma de olhar está a mudar - não só em França, mas também em grande parte da Europa Central.

"Uma ave que durante muito tempo foi vista como praga revela-se um beneficiário discreto para jardins, parques urbanos e até áreas agrícolas."

Em vez de tentar afastar este pequeno apreciador de sementes, a recomendação actual de vários técnicos é a oposta: vale a pena incentivá-lo. Afinal, onde os pardais se instalam com facilidade, normalmente há sinais de equilíbrio ao fundo - insectos suficientes, locais de abrigo, sebes, pequenas zonas de “natureza solta”. Em suma, um mini-ecossistema a funcionar de forma razoável.

Porque o pardal é um ajudante de jardim subestimado

A LPO sublinha um detalhe que surpreende muitos jardineiros amadores: as crias não vivem de grãos, mas de insectos - e em grande quantidade. Os adultos passam horas a recolher lagartas, larvas de mosquito e outros pequenos animais para garantir proteína aos juvenis.

Caçador de insectos com penas

Na prática, isto significa que, sobretudo na Primavera e no início do Verão - quando as árvores de fruto rebentam, os legumes são ainda tenros e as roseiras lançam novos brotos - o pardal anda “no terreno”. Ele não anda a saquear canteiros; concentra-se principalmente em insectos que, mais tarde, podem causar danos maiores.

  • Lagartas de borboletas que podem desfolhar plantas
  • Pulgões e as suas larvas
  • Pequenos escaravelhos e larvas de escaravelho
  • Aranhas e outros pequenos animais como fonte de proteína

Para quem observa, pode parecer apenas uma procura de alimento sem importância. Para as plantas do jardim, no entanto, pode ser a diferença entre um ataque leve e uma infestação séria. Em muitos casos, quanto mais aves insectívoras utilizam um espaço, mais estável tende a manter-se o equilíbrio.

"O pardal ajuda a manter as populações de insectos sob controlo, sem venenos, sem custos - 24 horas por dia e de forma totalmente automática."

Estabilizador do mini-ecossistema do jardim

A LPO lembra que cada espécie nativa é uma peça de um puzzle maior. Os pardais situam-se em vários níveis da cadeia alimentar: consomem insectos, bicam sementes e, por sua vez, são presa de aves de rapina e de gatos. Quando se remove um elemento destes, a estrutura pode desequilibrar-se com facilidade.

No jardim, isso nota-se muitas vezes de forma clara: quando faltam aves, alguns insectos multiplicam-se rapidamente. Se a resposta for recorrer a químicos, outras espécies acabam por sofrer - como abelhas selvagens ou borboletas. Um bando activo de pardais funciona, pelo contrário, como uma zona tampão natural contra oscilações extremas.

Porque o pardal está a desaparecer de muitas cidades

Há aqui um ponto curioso: precisamente nas grandes cidades, onde o pardal foi durante muito tempo a “ave de todos os dias”, as populações têm vindo a cair há anos. Em várias regiões da Europa, a espécie já é encarada como um sinal de alerta sobre o estado da natureza urbana.

Os especialistas apontam várias causas:

  • muita impermeabilização do solo, quase sem terra exposta
  • fachadas modernas sem frestas e nichos para nidificação
  • relvados demasiado curtos em vez de sebes e vegetação espontânea
  • forte diminuição de insectos devido a pesticidas e a jardins monótonos

Dito de outra forma: quando o pardal desaparece, perde-se uma parte da diversidade viva mesmo à porta de casa. Por isso, as organizações de protecção das aves insistem que esta espécie não deve ser tratada como problema, mas como indicador - e como ajuda.

Como tornar o seu jardim amigo dos pardais

Quem quiser apoiar este pequeno fã de grãos não precisa de transformar o jardim de alto a baixo. Pequenas mudanças, muitas vezes, já bastam para facilitar a presença dele - e de muitas outras espécies.

Estrutura em vez de relva estéril

Um relvado tipo “tapete”, com rebordo de pedra, gabiões e sebes de buxo pode parecer impecável, mas oferece pouco às aves. Os pardais preferem diversidade e “cantos” onde consigam esconder-se e encontrar alimento.

Podem ajudar, por exemplo:

  • sebes soltas com arbustos nativos como carpa, alfena e pilriteiro
  • arbustos densos ou trepadeiras como refúgio
  • pequenas ilhas de flores silvestres no relvado, para atrair insectos
  • alguns recantos menos arranjados com folhas e ramos

"Quanto menos perfeito um jardim parece, mais à vontade costumam sentir-se pardais, insectos e outros animais."

Comida, água e locais de nidificação

Os pardais são espécies associadas ao ser humano e vivem há séculos muito perto de nós. Quem lhes garante o básico costuma ser recompensado rapidamente com chilreio intenso e muita actividade.

Medida Efeito nos pardais
Comedouro com mistura de sementes durante todo o ano Garante energia, sobretudo em fases mais frescas e quando há pouca comida
Recipiente raso com água ou bebedouro para aves Serve para beber e tomar banho, aumentando o tempo de permanência no jardim
Caixas-ninho com orifício de entrada a partir de cerca de 32 mm Oferece locais para criar, quando já não existem fendas em muros antigos
Evitar insecticidas e produtos para eliminar musgo Mantém disponível o alimento para adultos e crias

Importante: os comedouros devem ser limpos com regularidade para reduzir o risco de transmissão de doenças. E a água convém ser mudada diariamente, sobretudo no Verão.

Porque devemos repensar o que é “útil” e o que é “prejudicial”

A LPO chama a atenção para o facto de expressões como “praga” ou “espécie útil” reflectirem, no essencial, interesses humanos. Para o equilíbrio da natureza, estas etiquetas pouco contam. Espécies que por vezes nos incomodam podem estar a cumprir funções discretas, mas essenciais, dentro do sistema.

O pardal é um bom exemplo: sim, pode beliscar alguns grãos maduros ou apanhar umas sementes no canteiro. Ao mesmo tempo, a mesma ave recolhe centenas de larvas de insectos para alimentar a ninhada. E, na maioria das situações, o eventual dano na colheita é claramente menor do que o ganho trazido pelo controlo natural de pragas.

"Quem permite diversidade no jardim recebe, em troca, ajuda gratuita na manutenção - e o pardal faz parte desse ‘equipa’ invisível."

O que os donos de jardins ganham, de forma concreta

Um jardim amigo dos pardais oferece mais do que sons de aves pela manhã. Também contraria a tendência das superfícies estéreis de brita, apoia os insectos e dá às crianças um contacto directo com a natureza.

Quem se senta à janela com filhos ou netos para observar as aves percebe depressa: o pardal, supostamente “sem graça”, é surpreendentemente social. Raramente aparece sozinho; comunica muito, discute, corteja, e toma banhos demorados em areia e em água. Do ponto de vista pedagógico, é quase um manual vivo sobre comportamento, vida em grupo e adaptação à presença humana.

Ao mesmo tempo, outras espécies também beneficiam das mesmas medidas: sebes, flores silvestres e a ausência de venenos atraem borboletas, abelhas selvagens, joaninhas e muitos outros animais. Quem hoje começa por acolher uma ave “comum” como o pardal acaba, muitas vezes sem dar por isso, por lançar as bases para um jardim mais natural - e que, nos anos seguintes, se torna mais rico e mais interessante.

A mensagem, do lado da protecção das aves, é inequívoca: em vez de afastar o pequeno comedor de sementes de canteiros e árvores, compensa olhar duas vezes. Quem o vê como aliado ganha um jardineiro incansável e totalmente gratuito - com asas, bico e um apetite respeitável por insectos.


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