Numa tarde poeirenta em Jedá, as gruas recortam-se no céu do deserto com uma leveza quase inesperada. Cá em baixo, o núcleo de betão que está a nascer para a futura Jeddah Tower já parece irreal - como se alguém tivesse ampliado um arranha-céus comum e se tivesse esquecido de parar. Motoristas de táxi abrandam para a apontar. Operários aproveitam as pausas para tirar auto-retratos. Nas redes sociais, as pessoas aproximam e afastam as renderizações: uma agulha de vidro, com um quilómetro de altura, a furar as nuvens.
Do outro lado do planeta, um casal jovem percorre anúncios de arrendamento num telemóvel de ecrã estalado. As contas não batem certo. O sonho de “um cantinho só nosso” vai-se afastando, como uma miragem.
O mesmo mundo que consegue chamar do nada uma torre de 1 000 metros no meio da areia não garante, para muitos, um tecto decente.
Algo aqui está profundamente desalinhado.
Um quilómetro de altura enquanto as pessoas contam moedas para a renda
No centro desta história está um contraste simples e brutal. A Arábia Saudita quer erguer o arranha-céus mais alto do planeta, ao mesmo tempo que milhões de pessoas, em vários continentes, não conseguem sequer dar o primeiro passo na escada da habitação. Não é preciso um doutoramento em planeamento urbano para sentir o choque.
A Jeddah Tower, se for concluída, deverá atingir cerca de 1 000 metros - aproximadamente o equivalente a três Torres Eiffel empilhadas. A ideia é funcionar como um símbolo luminoso de ambição: riqueza do petróleo transformada em vidro e aço, em vertical.
Só que, para quem observa a partir de apartamentos apertados - ou do quarto da infância onde nunca conseguiu deixar de viver - o impacto soa mais a provocação do que a inspiração.
Pense-se numa história banal: uma enfermeira de 32 anos em Londres, a sair de um turno nocturno, a deslizar por aplicações imobiliárias no autocarro de regresso a casa. Ganha mais do que os pais alguma vez ganharam, mas até o estúdio mais barato exige uma entrada que demoraria anos a juntar, se nada corresse mal.
Brinca com os amigos dizendo que vai ser “a tia colega de casa” para sempre. Só que a piada já perdeu a graça. As rendas sobem mais depressa do que o salário. As taxas de juro do crédito disparam. As casas que antes conseguia imaginar comprar transformaram-se em “produtos de investimento” para pessoas que nunca verá.
No meio do feed do Instagram, surge um anúncio patrocinado: um vídeo cintilante dos mega-projectos da Arábia Saudita, incluindo aquela agulha de um quilómetro. Centros comerciais de luxo. Villas no céu. Imagens aéreas de helicóptero. Ela carrega duas vezes - quase por ironia - e continua a deslizar.
Este é o ecrã dividido do nosso tempo. De um lado, países em corrida pela supremacia do horizonte: mais alto, mais brilhante, mais “icónico”. Do outro, gente comum a discutir com senhorios por causa de um aquecedor avariado, ou a calcular se cabe um segundo filho num T2.
Os dirigentes sauditas afirmam que projectos como a Jeddah Tower servem para diversificar a economia e atrair turismo e negócios - um mega-símbolo para mostrar ao mundo que são mais do que petróleo. Os críticos, pelo contrário, vêem ali um monumento à desigualdade: um brilho que distrai enquanto direitos básicos e dificuldades diárias continuam por resolver.
A verdade crua é esta: um quilómetro de vidro não se converte, por magia, em casas onde as pessoas possam realmente viver.
O planeta divide-se: fascínio, revolta e perguntas desconfortáveis
Se ouvir com atenção as conversas sobre a Jeddah Tower, vai notar três registos diferentes. Há quem fique deslumbrado. Falam de progresso humano, génio da engenharia e do entusiasmo de “testar limites”. Partilham renderizações como quem partilha fotografias de bebés.
Outros reagem com raiva aberta. Encaram a torre como um insulto a quem está preso em estúdios caríssimos ou em habitação social degradada - um emblema de um sistema que encontra sempre dinheiro para prestígio, mas nunca para dignidade básica.
E existe ainda um grupo mais silencioso, preso entre admiração e desconforto, a tentar segurar as duas emoções ao mesmo tempo. É aí que a maioria de nós acaba por ficar.
Quando se colocam números lado a lado, o mal-estar torna-se mais agudo. O custo estimado da Jeddah Tower tem sido apontado para mais de mil milhões de dólares, por vezes mais, consoante atrasos e redesenhos. E isto antes de contar com o bairro envolvente e as infra-estruturas necessárias para a sustentar.
Compare-se agora com a crise da habitação nas grandes cidades: em Los Angeles, dezenas de milhares dormem em carros, nos passeios, em acampamentos. Em Paris, trabalhadores fazem duas horas para cada lado porque o centro se tornou um postal de luxo. Em muitos locais, um T1 “decente” consome metade do salário.
Todos conhecemos aquele instante em que olhamos para a renda do mês e nos perguntamos se o sistema foi desenhado por gente que nunca teve de se preocupar com isto.
Do ponto de vista político, a mega-torre saudita encaixa num risco mais amplo. O Príncipe Herdeiro Mohammed bin Salman pretende reconfigurar o país como uma potência futurista: a NEOM no deserto, giga-projectos ao longo do Mar Vermelho, cidades de entretenimento e, agora, este enorme espigão em Jedá.
Os defensores dizem que obras ousadas - quase escandalosas - captam atenção global, geram empregos e aceleram mudanças dentro de uma sociedade conservadora. Os detractores devolvem a pergunta: empregos para quem, casas para quem, progresso para quem? E alertam para condições laborais, custos ambientais e para o que fica quando as câmaras se vão embora.
Sejamos francos: quase ninguém acredita que construir até às nuvens vá, de repente, reparar o que está avariado ao nível do chão.
O que fazer quando o horizonte parece viciado?
Perante um espectáculo destes, é fácil sentirmo-nos insignificantes. A torre foi literalmente pensada para provocar essa sensação. Ainda assim, há gestos concretos capazes de trazer a conversa de volta à sua escala.
Comece pelo local. Descubra quem é, de facto, dono dos edifícios à sua volta. Muitas cidades já publicam dados sobre grandes senhorios, taxas de devolutos e propriedade corporativa. Essa informação muda a forma como fala sobre rendas - e a quem exige respostas.
Depois, avance um passo: participe numa associação de inquilinos, num colectivo de habitação, ou até num grupo de WhatsApp do bairro que trate de mais do que gatos perdidos. No debate sobre habitação, o poder raramente muda porque uma pessoa se queixa. Muda quando muitas pessoas comparam experiências.
É comum cair na armadilha do cinismo total. Passa a vida a deslizar por notícias de mega-projectos, ri amargamente com imagens de “florestas verticais” no deserto e repete que “nunca vai mudar nada”. Esse entorpecimento é compreensível - mas, em silêncio, ajuda o estado actual das coisas.
Uma resposta mais saudável é o envolvimento selectivo. Não precisa de se tornar activista de um dia para o outro. Pode começar por falar com mais honestidade com amigos, por votar tendo as políticas de habitação em mente, por fazer perguntas incómodas quando políticos se gabam de edifícios “icónicos” em vez de bairros habitáveis.
E se sentir culpa por se preocupar com o seu stress habitacional enquanto arranha-céus brotam no deserto, largue essa culpa. A sua luta não é pequena. É a linha da frente.
“Estamos a construir monumentos ao nosso ego de engenharia”, disse-me recentemente um urbanista europeu, “enquanto tratamos a habitação acessível como um projecto secundário. Um dia vamos olhar para trás e perguntar como foi possível termos invertido tanto as prioridades.”
- Pergunte para onde vai o dinheiro
Quando uma cidade, um estado ou um país anuncia um mega-projecto, procure o orçamento paralelo para habitação social ou apoios à renda. Se não o conseguir encontrar, esse silêncio já é uma resposta. - Acompanhe as histórias dos trabalhadores
Por trás de cada renderização futurista existem pessoas reais a deitar betão, a ligar elevadores, a limpar vidro. O salário, a segurança e as condições de vida dizem mais sobre a ética de um projecto do que qualquer campanha polida. - Defenda projectos aborrecidos, mas habitáveis
Habitação social, cooperativas, pequenas reabilitações raramente dão manchetes. No entanto, são estas iniciativas “pouco sexy” que, discretamente, evitam que milhares caiam pelas fendas. - Partilhe o seu próprio percurso na habitação
Falar de renda, dívida ou de estar excluído da compra de casa costumava ser tabu. Quebrar esse silêncio expõe padrões que políticos e promotores não conseguem ignorar para sempre.
Uma torre como espelho do que valorizamos
A Jeddah Tower continua em construção, com a altura final e a data de conclusão ainda incertas. De certa forma, isso torna-a um símbolo ainda mais eficaz: uma promessa a meio, um gigantesco “em breve” no horizonte. Não se limita a dividir opiniões; obriga a uma pergunta.
O que é que uma sociedade celebra como sucesso? Será tocar nas nuvens com apartamentos de luxo e átrios no céu, ou será uma geração a dizer, baixinho, “finalmente consigo pagar uma casa estável”?
A ambição saudita de um quilómetro não existe isolada. Faz parte da mesma lógica global que transforma cidades em activos, casas em produtos e skylines em competições. É por isso que pessoas longe de Jedá sentem a notícia como algo pessoal. A torre está distante, mas o eco emocional está próximo: se há dinheiro para isto, porque nunca há o suficiente para nós?
Talvez seja essa a verdadeira fractura que este projecto revela - não entre Oriente e Ocidente, nem entre países ricos e pobres, nem entre progressistas e conservadores. Mas entre quem vê a habitação como uma âncora humana e quem a trata como mais uma arena onde altura, espectáculo e lucro ganham sempre.
O mundo vai continuar a construir alto. A questão real é se ainda conseguimos construir com justiça.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Símbolo vs. realidade | A Jeddah Tower de 1 km exibe ambição nacional enquanto muita gente não consegue pagar habitação básica. | Ajuda-o a interpretar a tensão emocional ao ver mega-projectos no meio do seu próprio stress com a habitação. |
| Habitação como campo de batalha | Cidades globais enfrentam subidas de rendas, especulação e salários estagnados que excluem as pessoas comuns da compra. | Dá contexto às suas dificuldades pessoais, mostrando que fazem parte de um padrão maior e partilhado. |
| Acção quotidiana | Organização local, perguntas sobre orçamentos e defesa de projectos “aborrecidos” de habitação podem mudar prioridades. | Oferece formas práticas de reagir sem cair num cinismo impotente. |
FAQ:
- Pergunta 1 A Arábia Saudita está mesmo a construir um arranha-céus de 1 km de altura?
Sim. O projecto Jeddah Tower pretende chegar a cerca de 1 000 metros, o que faria dela o edifício mais alto do mundo se for concluído. A construção tem enfrentado atrasos e recomeços, mas a ambição mantém-se: um marco de um quilómetro na costa do Mar Vermelho.- Pergunta 2 Como é que esta torre se relaciona com a crise global da habitação?
Não estão directamente ligados por uma linha orçamental, mas fazem parte do mesmo modo de pensar. Estados e investidores despejam financiamento e atenção em projectos de prestígio, enquanto a habitação do dia-a-dia é tratada como um custo a reduzir ao mínimo. Esse contraste intensifica a frustração de quem está excluído de casas decentes.- Pergunta 3 Mega-projectos como este ainda podem beneficiar pessoas comuns?
Podem criar empregos, novas infra-estruturas e, por vezes, estimular reformas. A grande questão é a distribuição: quem fica com os empregos, quem pode viver ou trabalhar lá, quem ganha segurança a longo prazo? Sem políticas sociais robustas, os benefícios tendem a ficar no topo.- Pergunta 4 Porque é que os países continuam a perseguir arranha-céus recordistas?
Um pouco por orgulho, um pouco por marca, um pouco por estratégia económica. Uma torre recordista sinaliza poder e modernidade, atrai investidores e turistas e coloca uma cidade no mapa global. Essa lógica pode eclipsar investimentos mais discretos, mas essenciais, em habitação pública e serviços.- Pergunta 5 O que posso fazer, realisticamente, perante o aumento dos custos da habitação?
Não consegue, sozinho, reescrever a política de habitação, mas pode juntar-se a grupos de inquilinos, apoiar candidatos que priorizem habitação acessível, exigir transparência sobre quem é dono do quê e falar abertamente sobre a sua própria situação. Pequenos passos, multiplicados por milhares de pessoas, é como o debate muda - devagar, mas muda.
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