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O colar de prata do século X de Veliky Novgorod e as redes da Europa medieval

Pessoa a recolher colar antigo de escavação arqueológica com moedas, cruz e instrumentos de medição.

Investigadores concluíram que um colar de prata enterrado do século X, encontrado em Veliky Novgorod - uma das cidades mais antigas do noroeste da Rússia - inclui contas cuja origem pode ser ligada a oficinas espalhadas pela Escandinávia, pela Europa Central e pela antiga Rus.

Esse alcance altera a leitura da cidade: mais do que um centro periférico, surge como um nó fortemente interligado, onde objectos de prestígio circulavam por distâncias enormes e transportavam referências culturais reconhecíveis em vários lugares.

Pistas num único poço em Novgorod

Oculta num poço de argila na chamada Sofia Side de Novgorod, um bairro histórico, a deposição reuniu quase 1.900 objectos resultantes de um único acto de esconderijo.

A partir do estudo de 40 contas, Irina Zaytseva, do Instituto de Arqueologia da Academia Russa de Ciências (IA RAS), conseguiu relacioná-las com achados europeus.

Os diferentes tipos de contas associam o conjunto a tradições escandinavas, eslavas e europeias em sentido mais amplo, em vez de apontarem para uma única oficina local.

Em vez de um estilo estritamente local, o conjunto sugere um “guarda-roupa” de elite construído através de contactos, ofertas, comércio e reutilização de prata.

Prata proveniente de muitas cunhagens

A maior parte do tesouro era composta por prata de moeda, com mais de 1.800 peças cunhadas no Médio Oriente e na Ásia Central.

Entre essas moedas, os dirhams - moedas de prata usadas no comércio islâmico - formavam o grupo mais numeroso e chegaram a Novgorod através de longas cadeias comerciais.

O facto de moedas e adornos aparecerem juntos no mesmo depósito ilustra como a prata podia passar com facilidade do papel de dinheiro para o de ostentação.

Uma moeda bizantina de prata, uma peça alemã e imitações búlgaras do Volga ajudam a datar o enterramento do final da década de 970.

Joalharia que acumulava valor

As marcas de uso contam uma história paralela: algumas contas estavam gastas e alisadas pelo atrito, enquanto outras mantinham contornos bem definidos.

Muitas contas de prata evidenciam desgaste intenso, o que indica utilização prolongada antes de o conjunto ter sido enterrado.

Vários adornos apresentam ainda sinais de reparação, sugerindo que os proprietários preferiam manter em uso peças estimadas em vez de deitarem fora prata danificada.

Este padrão faz com que o depósito pareça menos um capital recém-reunido e mais um conjunto de bens guardados no seio de uma casa.

Técnicas visíveis no interior

Para compreender como as contas foram construídas, os investigadores recorreram à tomografia, com exames que revelam o interior em “fatias” finas.

Essas imagens tornaram mais claros os métodos de fabrico, os pontos de soldadura e a composição do metal, que se manteve notavelmente pura entre os diferentes adornos.

A equipa identificou também os tipos de fio usados na decoração, acrescentando pormenor ao modo como as contas eram montadas.

O grau de controlo observado faz com que a joalharia pareça menos improvisada e mais compatível com oficinas experientes e bem estabelecidas.

Moda para lá das fronteiras

Semelhanças encontradas em Gnezdovo, perto de Smolensk (no oeste da Rússia), na ilha sueca de Gotland e em Roskilde, na Dinamarca, inserem os adornos num estilo setentrional amplo.

Pingentes e contas recorrem igualmente à filigrana - fio fino de prata soldado em padrões - uma técnica já visível em tesouros mais antigos encontrados nas imediações de Novgorod.

“Apesar da singularidade de cada item no novo tesouro, todos eles têm analogias em complexos de tesouros deste período descobertos na Europa Oriental e na Escandinávia”, afirmou Zaytseva.

A distribuição geográfica dessas analogias indica que as elites locais podiam seguir uma aparência partilhada sem abdicar de peças regionais e dos seus significados próprios.

Símbolos cristãos precoces

Uma cruz de prata presente no conjunto liga o achado a alguns dos mais antigos objectos cristãos conhecidos nas primeiras terras eslavas orientais.

Os seus braços alargados e os três discos correspondem a cruzes do tipo escandinavo, que se difundiram pelo norte da Europa na segunda metade do século X.

Como os exemplares melhor datados de Novgorod costumam ser posteriores, esta peça sugere que símbolos cristãos chegaram às elites locais antes da conversão oficial.

Isso não determina quem a usou, mas reduz a distância entre redes comerciais e mudanças religiosas iniciais.

Prestígio expresso pela joalharia

Num mesmo conjunto de indumentária, os adornos combinam tradições escandinavas e eslavas orientais, em vez de as separarem em colecções distintas.

Um anel temporal recorreu à granulação - minúsculas esferas de prata fundidas sobre o metal - num estilo que viria a tornar-se comum mais tarde no vestuário eslavo oriental.

Esta mistura encaixa numa imagem mais ampla de uma cidade onde formas importadas se encontravam com o gosto local e com a afirmação de poder.

Aqui, a joalharia não funcionava apenas como ornamento: assinalava estatuto, relações e pertença num mundo político em formação.

O que continua por esclarecer

O tesouro deixa também uma questão essencial por resolver, porque a arqueologia recupera objectos com mais facilidade do que intenções ou medos.

Moedas, pingentes e contas permaneceram no lugar, mas a decisão humana que levou ao enterramento continua fora de alcance.

Essa limitação é relevante: o depósito conserva riqueza, estatuto e crença, mas não o tipo de urgência pessoal que esteve por detrás do gesto.

Interrogações deste género mantêm o achado aberto, transformando um conjunto fechado num problema histórico ainda em movimento.

A importância das escavações de salvamento

Descoberto em escavações de salvamento realizadas antes de obras, o tesouro não resultou de uma procura orientada para “tesouros”.

Esse contexto preservou o poço, as suas camadas e a relação entre moedas e adornos - algo que a escavação aleatória costuma destruir.

Antes deste, só tinham sido encontrados em Novgorod três tesouros comparáveis deste período, o que ajuda a explicar o entusiasmo.

Visto assim, o valor do conjunto não reside apenas na beleza, mas no facto de os arqueólogos o terem registado com a sua história contextual intacta.

O que o tesouro revela

Este tesouro mostra que um único conjunto de adornos enterrado consegue ligar Novgorod a rotas de prata em lingote, a tradições de fabrico, a símbolos religiosos e a modas que atravessavam a Europa.

Estudos futuros poderão afinar a origem de cada peça, mas o conjunto enterrado já torna a história inicial de Novgorod mais vasta e mais ligada ao exterior.

Crédito da imagem: Instituto de Arqueologia da Academia Russa de Ciências

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